sábado, agosto 04, 2001

Atendendo a pedidos _ ICQ:96808521
"I wash the streets from your skin
When you come home
You wash my trace from your skin
and you leave again." Sneaker Pimps - Waterbaby
My dear
My blue boy
Spectacular in being unspectacular


Estar dormindo de sapatos. Alguém brincar com seu cabelo. Rir até sentir o rosto doer. O abajur lilás. Lilás é a cor de alguém que você não vai esquecer nunca. Banhos mornos em tardes quentes. Dormir junto. E acordar junto. Tomar café da manhã na padaria da esquina. Tomates secos e Nescau. Chuva finíssima. Yellow sky. Sua pele como papel. Café e cigarros. Replay. Papel, café e cigarros. Quando nos apalpamos aos tropeços, mais nos perdendo do que nos juntando. Imaginar mais do que ver. Crimes delicados. Ora desleixados, ora urgentes. Happy end. Estimulantes e soníferos como balas. I always cry at endings.
Um pouco de Lya Luft numa tarde entediante de sábado...
" Histórias de Gentileza

Encontros
Real não é apenas o concreto:
É a sua construção. No mar
estão todas as viagens.
Real é preparar o mais real: talvez
um dia estarmos – boca a boca –
respirando, no sopro um do outro,
profunda troca,
intensa chama,
e entendimento

Se a paixão é o esplendor, o convívio é a grande prova de que alguma coisa em corpo e alma supera a banalidade do cotidiano – que para algumas coisas é tão benéfico, doce remédio, conforto e raiz.
Mas é também, esse mesmo cotidiano, a insidiosa poeira das repetições, do esfolar-se na constante presença, o fim de todos os pequenos e deliciosos mistérios do outro. Mistérios.
Conviver pode ser tão difícil quanto é dura a solidão.
Com Altéria eu não convivo de verdade: ela é uma sombra. Parida de mim, ponta do meu novelo, sediada nas minhas entranhas, dentes cravados na minha alma. Mesmo assim não convivemos, não há entre nós nem delicadeza nem maldade: dançamos esse minueto, tentamos esse dueto, e como duas entidades enlaçadas somos ainda sempre duas, nada sacrificando para que a outra exista, nada mutilando para que a outra se possa expandir.

*

Assim deveriam ser as histórias de amor, mas em geral não são.
Assim deveriam ser os laços de família, mas em geral não são.
Assim deveriam ser todas as amizades, mas não são.
Assim deveriam ser todos os convívios, mas não são.

Porque temos de estar sempre alertas, preparados, prontos para a invasão: a hora em que – às vezes sem me dar conta – eu quero impor a quem amo as minhas verdades ou o que penso que sejam, e declará-las território meu.
E a pessoa que ama pode querer fazer o mesmo comigo.
A partir desse momento, sendo “propriedade” um do outro, o encantamento – com o respeito – começa a morrer.
É a hora em que, quando antes pensávamos: “Que pena, hoje fulano não vem”, nos descobrimos pensando: “Graças a Deus, hoje fulano não vem”.

Mas, nas relações humanas que se tornam sufocantes, inventamos recursos para sobreviver, buracos onde respirar e deixar entrar mais claridade.
Toda convivência, especialmente se for difícil ou constante – ou difícil porque constante –, precisa de pequenos rituais que chamo de delicadeza. Não como uma farsa, mas como algo em que realmente acreditamos e está em nossa personalidade ou vem de nosso ambiente na infância, ou ainda resulta de um processo de auto-educação.
Uma vez assimilado, torna-se parte de nossa natureza e ilumina o nosso dia-a-dia.
Podem parecer coisas muito insignificantes; para alguns, até um pouco excêntricas – porque não estamos acostumados a gentilezas.

Uma amiga estava com a mãe demenciada e muito velhinha em uma casa geriátrica e, quando a visitava, embora a velha dama em geral nem a reconhecesse mais, dizia-lhe alguma coisa que, sabia, em outros tempos a teria encantado:
- Seu cabelo está com uma cor muito bonita.
Ou:
- Este vestido é novo, não é?
Por um instante que fosse, o olhar desinteressado se animava, o rosto clareava, a velhinha concordava entusiasmada e dava alguma explicação, como:
- Pois é, eu mesma agora pinto o meu cabelo, sabia?
Ou:
- Você gosta? Comprei ainda ontem em Paris.
No seu mundo de realidades ela voltava a ser uma pessoa inteira, a mulher que fora, com dignidade e beleza.
Pequenos rituais podem iluminar a vida em que o cotidiano e o hábito – necessários e reconfortantes – também podem nos embrutecer.
Não importa que me achem pueril ou sentimentalóide.
Todos alguma vez nos sentimos precários e precisados.
Eu, com certeza, quero ter permissão, quero o direito, de não ser santa de não ser inteligente de não ser forte muito menos corajosa, de não ser elegante de não ser bela de não ser irrepreensível e admirável.
Mas, diz ser isto: uma pessoa, uma pessoa, com momentos de esplendor e noite.
Apenas uma pessoa falível, falida e carente e assustada. E disto haurindo, com a sua humanidade, a sua grandeza.

Ela então pensou:
Sou mais do que isso que vêem em mim. Mereço mais do que atenção distraída, o gesto entediado, o olhar desatento.
Nem eu mesma sabia, mas sou algo além deste vulto obscuro, essa criatura inaparente, resignada ou rancorosa, que permite ou cobra mais do que alguém lhe poderia dever.
Eu sou o novelo das palavras não ditas que se condensou na treva onde me sinto sozinha. É dali que sobe este vento e nasce esse palavreado incessante que não me deixa dormir; esse sopro de capim perfumado, esse farfalhar de passos que nunca chegam mas nunca vão inteiramente, esse mar debaixo da sacada... e sua música me dá coragem de abrir os olhos cada manhã de cada dia em que eu tento ser com tanta aflição.
É preciso de que alguém que ama entenda isso, descubra isso, aceite e ame também isso em mim.

Recado para a outra margem de mim:
Quando o outro sabe que estou com medo e me toma nos braços.
Quando o outro sente quando me dói a idéia de perda e ousa – e fica um pouco mais.
Quando o outro vê a minha fragilidade e não ri de mim e nem se aproveita disso.
Quando o outro percebe que preciso de silêncio e não vai embora batendo a porta.
Quando o outro nota que me preocupo com ele e não se irrita.
Quando cometi um erro e o outro não levanta a voz.
Quando faço uma bobagem e o outro gosta um pouco mais de mim porque sou boba tantas vezes.
Quando simplesmente estou cansada e o outro não acha que estou de mau humor ou que reclamo demais.
Quando estou de mau humor e o outro compreende sem fazer alarde.
Quando levanto de madrugada e ando pela casa... E o outro não vem atrás de mim dizendo: “Mas que chateação essa sua mania, volta para a cama!”.
Quando peço um segundo drinque e o outro não diz: “Poxa, mais um?”
Quando digo uma coisa bem inadequada na frente de outras pessoas e o outro não se aborrece comigo.
Quando perco a paciência perco a graça perco a compostura e o outro ainda assim me abraça.
Quando o outro – seja filho, amigo, amante, marido – não me considera sempre disponível, sempre necessariamente compreensível, mas me aceita quando não estou podendo ser nada disso.
Quando o outro entende que sou apenas uma pessoa, uma pessoa, uma pessoa."
Lya Luft - Histórias do Tempo

Por que quero ver J. hoje?
1) Paranóia
2) Falta do que fazer
3) Intuição estranha
4) Para me ver livre dessa obsessão terrível.
O que eu posso fazer se mesmo quando J. toca J. está conversando comigo???
_ I'm just a rat in a cage...
_ Tudo bem, eu te perdôo.
_ Pure morning...
_ Como agora. Ou quase.
_ Sweetness, sweetness I was only joking...
_Tudo bem. Esquece. Esquece. Esquece. Deita.

quarta-feira, agosto 01, 2001

"Betty said she prayed today
for the sky to blow away
or maybe stay
she wasn't sure" Nick Drake
"Je ne parle pas français
Katherine Mansfield

Não sei porque tenho tanta predileção por este pequeno café. Ele é sujo e triste, muito triste. Se ao menos ele fosse diferente de centenas de outros - não é. Ou se fosse frequentado diariamente por tipos estranhos que você, observando de seu canto, pudesse reconhecer e mais ou menos (com uma grande ênfase no menos) compreender.
Mas, por favor, não imagine que esses parênteses sejam uma confissão de humildade perante o mistério da alma humana. Absolutamente; não acredito em alma humana. Nunca acreditei. Acredito que as pessoas sejam como valises - fechadas tendo dentro certas coisas, elas são expedidas, atiradas aqui e ali, empurradas a esmo, lançadas por terra, perdidas e achadas, de súbito semi-vazias ou atulhadas como nunca, até que o Carregador Final as joga no Derradeiro Trem e elas se vão, chacoalhando, para longe...
Não que essas valises não possam ser muito fascinantes. Ah, e como! Vejo-me de pé na frente delas, sabe, como um fiscal de alfândega.
"Alguma coisa a declarar? Vinhos, bebidas alcoólicas, charutos, perfumes, sedas?"
E o momento de hesitação que antecede o rabisco de giz - "Serei enganado?" - e aquele outro que vem logo em seguida - "Fui enganado?" - são talvez os dois instantes mais sensacionais da vida. Sim, para mim são. (...)"
J. me lembra Belle & Sebastian e Judy and the dream of horses é a minha música.
Gravei Sigur Ros numa fitinha para L. porque L. me lembra rock sub-aquático, mas também chet baker e Pulp. Quando ouvi Babies pela primeira vez eu sabia que era para L.
Minhas mais novas obsessões:
1) Caixinhas lilases de madeira
2) Suede (ainda!)
3) Arab Strap
4) Elefantes de origami
5) Brian Molko
6) Canetas Bic
7) Gustav Klimt
8) Utamaro
9) J.
10) L.
Tenho pensado no outro e em como ele me passa as certezas como quem passa o prato do dia e depois o recolhe de volta e sem cerimônia como se me pudesse roubar assim sem cerimônia os pedaços.
Imagino se ele acaso teme que eu lhe faça o mesmo.
Se acaso tais certezas são só essa minha imaginação cataléptica submergindo em água escura.
Se o outro não passa de mais um personagem criado em mim essa página rasurada e de mim arrancado como um filho morto um braço amputado tão meu que ninguém enxerga o corte deixado um fiapo rasgado e nem ele o outro conhece a medida exata de sua ficção.
Fantástico! Então agora aqui assim ele se transforma em minha e só minha propriedade autoral.
Então vamos trocar nossas mãos como quem troca selos papel sobre papel como luva sua mão em meu pulso vamos sanar este corte vamos costurar estilhaços vamos unir nossas veias agarrar fiapos de vestidos de fadas então vamos trançar nossos dedos como quem tece seda como quem esquece os anéis quem embaralha as agulhas e descola os selos.

domingo, julho 29, 2001

Comentários, críticas destrutivas, etc etc: jubrina@ig.com.br
"Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem - pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela - apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo. Come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta outra casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave." Clarice Lispector
www.screamyell.com.br
Tudo bem, dou minhas flores pra ninguém.

Eu já de pijamas, banho tomado, Belle and Sebastian soando baixinho, farelos de biscoito e Salman Rushdie sobre o colo. Só a luz da cabeceira acesa. Velas, muitas velas. Na verdade, três. Três velas e incenso de canela. Ooh! Get me away from here I'm dying / Play me a song to set me free. Então Pedro liga vamos sair?por favor me salve. Meia-noite e já estamos na rua. Girl in the snow, where will you go / To find someone that will do? / To tell someone before it kills you / They listen to your crazy laugh / Before you hang a right / And disappear from sight / What do they know anyway? / You'll read it in a book / What do they know anyway? / You'll read it in a book tonight. Eu devia estar citando uma passagem de O chão que ela pisa, algo a respeito de versões - personagens - outros - perda, quando Pedro de repente
_ Estar com você é como ler um livro.
_ ...
_ Ler não. É como escrever um livro.
Silêncio. Abraço. Risos.
Então agora assim na rua esse frio escuro é a coisa mais doce que já ouvi. A coisa mais doce.
Então agora assim um amigo delicado te diz a coisa mais doce como se pudesse também te conhecer da forma mais delicada e você então se sente confortavelmente vazia imune anônima anêmona desconhecida por todos e todos e principalmente pelos delicados.
Depois cheese cake e água mineral. Tim-tim.
_ Vamos dançar?
Pista vazia. Placebo, Smashing Pumpkins, Byork, Smiths? Sweetness, sweetness I was only joking...
_ Vamos brincar de videoclipe?
_ Aqui? Assim? Mas e os outros?
_ Os outros não existem.
Colchões confortáveis no andar de cima.
_ Vamos deitar de pernas pro ar?
_ Vamos tirar os sapatos?
_ Posso dormir nos seus ombros?
Um segurança de terno e gravata bocejando. Acabou a festa, baby.
A música tinha acabado. Não tinha mais ninguém lá. Só dois gatos pingados descalços dormindo de pernas pro ar no andar de cima.
Essa leveza que pinta as paredes de negro
ou
Regando flores

Preciso de disciplina para uma vida repleta. Disciplina para os amigos, os livros, os manuscritos, aquele caderno. Disciplina para os detalhes o copo sobre a mesa uma pessoa aqui outra ali preenchendo as lacunas com considerações amenas. Disciplina para um amor menos urgente, mais cotidiano. Disciplina para o meu corpo que nunca se encaixa. Disciplina para um contentamento menos aflito e sem grandes surpresas. Disciplina para não rabiscar as palavras.
" _ Sinto os olhos úmidos. Nunca sei o que fazer com eles. Para onde devo olhar?
_ Você me pergunta o que fazer com seus olhos. Eu me pergunto como devo viver. É a mesma coisa."
Antonioni - Il deserto rosso.
Janela Indiscreta

Era uma vez uma menina que, por comodidade, esquizofrenia, suavidade ou falta de jeito, tropeçou para fora de sua vida e seu cenário e passou a assisti-los através de um buraco de fechadura. A vida lhe vinha agora em pedaços desconexos, fragmentos sem sentido sem sequência sem saída, vozes familiares. Incoscientemente, ela começou a acreditar naquela realidade como única possível. Força do hábito. E aceitava conformada seus pedaços como quem diz ali está a minha vida. Um braço, sapatos que se movem aqui e ali, agora um ruído, um sussurro, tão baixo! Minha vida.
Então um dia enfiaram-lhe uma chave nos olhos.